Sutilezas
Uma amiga, que aqui chamarei de Mariana, contou me um caso que poderia ser trágico se não fosse cômico. E fez com que eu parasse para analisar as sutilezas da vida e a falta dela também.
Reunida com uma turma de amigos num bar da moda, na cidade onde morava, um dia depois de muitas doses de uísque, encontrou uma amiga, Selma, que por ali passava um tanto quanto triste.
Mariana sabia o motivo da tristeza: a mãe da sua amiga de infância teria morrido num acidente recentemente. Pessoa muito falante, porém, daquelas que não sabem o que dizer nessas horas, a “doce Mary” teria corrido dali. Mas, talvez por influência das doses adquiridas, foi ao encontro da amiga e solidária começou:
__ Oi Selma!
Primeira sutileza: um “oi” totalmente penalizado.
__ Oi Mariana! Como vai você?
__ Eu vou bem. E você amiga?
Segunda sutileza: na verdade querendo saber do falecimento da mãe da outra.
__ Indo né? Tudo muito difícil, mas...
Terceira sutileza: não quer falar, mas já começa a esboçar alguma coisa sobre o assunto.
__ Pois é amiga, soube do ocorrido, estava fora da cidade.
Quarta sutileza: explicando o motivo de não ir ao enterro e nem mandar as condolências até esse dia.
__ Não tem problema, foi um enterro lindo!
Quinta sutileza: “você não fez falta”.
Minha amiga tem convicção, que a frase dita a seguir por ela, não foi de forma alguma um troco sutil. E sim um total branco devido ao álcool ingerido.
__ Pois é Selma, agora você só tem que agradecer!
Sua amiga tomada de um espanto sobrenatural, como se tivesse vendo um monstro em sua frente replica:
__ Nããoooo! Tudo. Menos agradecer.
Mariana sentiu-lhe faltar o chão.
Respirou profundamente, jogou os cabelos para trás, nesse momento, já sóbria, com o impacto da sua própria frase, ela tentou:
__ Agradecer pela força e...
Não lhe vinham mais palavras. A boca totalmente seca. Sem nenhuma cor no rosto, olhou para a mesa e falou:
__ Estão me chamando.
Claro, a sutileza de Selma foi a maior de todas desse diálogo, afinal, ninguém chamava por Mariana e a mesa de origem estava vazia.
Todos estavam na porta do elegante bar, esperando essa minha sutil e atrapalhada amiga.